Dinâmica emocional coletiva: como usar a seu favor (e do seu time)
Você já percebeu como, quase sempre, a gente se atenta ao efeito manada mas tenta focar em um indivíduo? Raramente nós somos capazes de analisar emoções coletivamente, num nível mais macro. Mais raramente ainda nós somos preparados para lidar com a dinâmica emocional no nosso dia a dia, o que é um erro bizarro.
As reações emocionais individuais são importantes, mas essa análise individualizada muitas vezes deixa passar reações que são intrinsecamente coletivas e é importante entender essas dinâmicas emocionais coletivas porque elas diferem das individuais em qualidade, magnitude e tempo. Os processos coletivos contribuem para um desenrolar de situações muito mais pronunciadas.
É possível citar uma infinidade de exemplos práticos disso, desde a escalada de violência em protestos, como os atos golpistas de 09/01/2023 ou os protestos que deram início ao movimento Black Lives Matter, em Ferguson, nos EUA. Mas o que nos leva a esse tipo de comportamento coletivo? E a importância disso no nosso dia a dia? Esse blog vai ser exatamente sobre isso.
Os fenômenos psicológicos coletivos
Não é de hoje que esse assunto é alvo do interesse de psicólogos e sociólogos. Hegel se referia aos processos coletivos psicológicos como volksgeist, ou espírito do povo. Durkheim, em 1912, identificou esse tipo de resposta coletiva emocional em cerimônias religiosas e reuniões coletivas. Lewin, em 1947, falou sobre a importância desses fenômenos em mudanças de organização social.
Na segunda metade do século XX, parece que o assunto perdeu um pouco do brilho e os focos das pesquisas foram muito mais sobre o indivíduo. Mas nos últimos anos o assunto voltou à tona e diversos estudos com foco no coletivo começaram a pipocar. Vou poupar o leitor de citações porque isso aqui não é um artigo acadêmico, mas pesquisas relevantes sobre memória, inteligência coletiva e ações coletivas foram produzidas na última década. Vou dar aqui, no entanto, um resumo breve sobre o assunto:
Emoções individuais, baseadas em grupos, e coletivas
As emoções individuais surgem como resposta a desafios ou oportunidades importantes. No geral, elas envolvem um pico de ativação, seguido por uma curva exponencial decrescente. Essa informação é importante porque a emoção difere do humor ou do stress nesse sentido, que são muito mais persistentes.
Daí vem uma categoria especial de emoções individuais: as emoções baseadas em grupos. Elas ocorrem quando o indivíduo se considera parte de um grupo social, em resposta a uma situação relevante pra esse grupo. Mas é importante lembrar aqui que elas são sentidas individualmente. O indivíduo não experiencia aquela emoção em conjunto com os outros membros do grupo. Se você é fã de algum esporte, sabe do que eu tô falando. Seu time ganha (ou perde) e você tá lá, assistindo o jogo sozinho no sofá da sala. Mas você sente a emoção como parte de um grupo.
E, por fim, a gente tem a emoção coletiva. Essa sim é um fenômeno a nível macro, que surge da dinâmica emocional entre indivíduos que estão respondendo a um fenômeno em conjunto. Essa definição dá ênfase a duas qualidades:
Primeiro, as dinâmicas emocionais, que são definidas por quaisquer processos de influência entre as emoções interpessoais, incluindo polarização, contágio emocional ou até as mudanças nas emoções que uma pessoa sente quando percebe as emoções que o outro está sentindo.
E, segundo, a ocorrência de propriedades que emergem como resultado das dinâmicas emocionais.
Beleza… Mas a gente tá aqui pra falar sobre marketing, gestão de empresas, papo corporativo. Que que eu tenho a ver com psicologia de emoções coletivas?
Pô, meu caro leitor, sinto te informar… Mas você trabalha com pessoas e para outras pessoas. Você tem tudo a ver com isso.
Dinâmica emocional no trabalho
Os dois melhores exemplos possíveis disso são os seguintes: um produto ou serviço que a sua empresa oferece tem falhas. Imagine que cinco clientes vieram, individualmente, falar com alguém da sua empresa sobre o problema. Agora imagine a página da sua empresa no Reclame Aqui, imaculada, 100% de avaliações positivas. Do nada, os cinco clientes resolvem ir lá reclamar: O primeiro faz uma reclamação moderada, conta o que aconteceu; o segundo vê o comentário do primeiro e fala ‘Opa… É o mesmo problema que o meu!’. Como você imagina que vai ser a última reclamação? Assim que o quinto cliente vê todos os outros comentários, cria-se um senso de identificação e a emoção se amplifica.
Do mesmo modo, um funcionário insatisfeito, ou vários, desde que eles ainda não tenham conversado entre si sobre o assunto, representam uma situação muito mais simples de resolver do que um grupo que já conversou sobre as insatisfações.
A identificação em grupo é uma peça chave para a dinâmica emocional das emoções coletivas. Conforme o senso de identificação vai aumentando, as emoções passam a ser um motor para que o grupo atinja o objetivo coletivo.
O papel do líder na dinâmica emocional do time
Nós já falamos aqui sobre a importância de ser um bom líder. A maioria dos empregados enxerga seus líderes como desmotivadores, punitivos e pouco abertos a ouvir. Na verdade, grande parte dos líderes reprime a voz dos liderados, dando pouca abertura para que eles se expressem.
Normalmente, são raros os momentos em que as pessoas se sentem confortáveis para demonstrar suas emoções e o que realmente estão sentindo dentro do ambiente de trabalho. Mas, quando elas recebem essa oportunidade, os líderes precisam estar preparados para entender como as interações entre os indivíduos vão impactar nas emoções coletivas.
O caminho para ter a emoção coletiva do time sob controle é saber como regular e conduzir as dinâmicas emocionais.
A gente tende a achar que emoções negativas, como raiva ou ansiedade, são péssimas no ambiente corporativo, mas elas podem ter um papel crucial em tornar os indivíduos mais engajados e transicionar para soluções melhores para problemas muitas vezes antigos. Obviamente, as emoções negativas podem levar a resultados catastróficos e por isso é importante entender como regulá-las.
Como regular as emoções, então?
Esse processo envolve mudar a trajetória das respostas emocionais conforme necessário, e a gente já faz isso o tempo todo individualmente. Mesmo porque, se não fizesse, o mundo seria caótico. Mas o que a gente raramente percebe é que as emoções passam por um caminho muito complexo em uma fração de segundo. A gente se atenta a uma situação, processa o que tá acontecendo e, só então, responde.
O processo de regulação emocional foi proposto pelo James Gross, da Stanford, nesse artigo aqui. É um framework relativamente simples no papel, que se baseia em:
- Uma situação acontece (seu colega é babaca durante uma reunião, por exemplo),
- Atenção à situação (você percebe que ele tá se exaltando);
- Avaliação da situação (você pensa ‘que isso?!’, talvez não nessas palavras);
- Resposta (você faz cara de incrédulo).
Não tem segredo, né? Mas e se eu te falar que dá pra agir pra interromper esse processo todo em cada um dos estágios?
Cada um dos passos recebe um nome: modificação da situação, mudança de foco, reavaliação e modulação da resposta.
Modificação da situação
A primeira estratégia envolve abordar a situação em si. Ao abordar a situação antes que os ânimos se exaltem, você traz a condução do assunto pra você.
Alguma vez você já parou pra pensar porquê a gente cria rituais? Por que todo time faz aquela rodinha antes de começar um jogo importante? E quem fala na rodinha? Geralmente, quem fala são as pessoas que tão mais confiantes, ou o capitão do time. Isso serve pra tirar o foco da situação em si, acalmando todo mundo, reduzindo a ansiedade e intimidando o adversário por mostrar que todo mundo está focado.
Quase toda empresa grande faz reuniões geralmente na segunda e na sexta-feira, uma pra decidir os rumos da semana e outra pra entender como foram os resultados. Isso ajuda a descomprimir o time, porque passa a sensação de que tudo está sob controle (e espera-se que esteja mesmo).
Criar rituais antecedendo situações que podem ser desafiadoras é um bom jeito de modificar a situação antes mesmo de ela começar a acontecer.
Durante uma reunião é impossível criar um ritual, então se você perceber que os ânimos estão escalando, é possível chamar a responsabilidade pra você e começar a mudar a maneira como o assunto é abordado.
Mudança de foco
A segunda estratégia envolve mudar o centro das atenções. Se você quer animar seus liderados, uma estratégia clássica é focar a atenção do time todo em um rival (e não na performance do time em si). Assim, cria-se um senso de ameaça e as pessoas esquecem que estão fazendo alguma coisa simplesmente para alcançar uma meta, mas sim para bater um concorrente.
O contrário também é válido quando você quer reduzir a ansiedade. A gente tem essa mania de ficar olhando métrica de concorrente, fazendo benchmark e se comparando.
O exemplo clássico de tirar o foco do concorrente foi a volta do Steve Jobs pra Apple. Quando ele chegou, em 1997, a Microsoft dominava o mercado, principalmente por conta do Office. O sentimento de inveja dos funcionários da Apple tava minando a performance da empresa, de acordo com o próprio Steve Jobs. Nas palavras do próprio:
Tinha gente demais na Apple e em todo o ecossistema da Apple jogando o jogo de ‘pra Apple ganhar, a Microsoft precisa perder’. E ficava claro que você não precisava jogar esse jogo porque a Apple não ia ganhar da Microsoft. A Apple não precisava ganhar da Microsoft. A Apple tinha que lembrar quem ela era, porque eles esqueceram quem ela era. Então, pra mim, era bastante crucial quebrar esse paradigma.
O Steve Jobs então conversou com o Bill Gates e os dois tentaram encerrar o assunto. As duas empresas não só selaram a paz, mas assinaram um acordo que começou a consertar a relação entre as rivais. O acordo estabelecia que a Microsoft ia começar a desenvolver um Office para Macs, além de tornar o Internet Explorer o navegador padrão nos computadores da Apple. Esse foi o sinal para os times pararem de focar na competição e focarem nas metas da própria Apple.
Falando de situações mais a curtíssimo prazo, tipo uma discussão durante uma reunião, tentar de mudar de foco nem sempre é fácil. Às vezes as pessoas simplesmente ignoram e continuam debatendo o assunto, às vezes elas consideram falta de respeito e podem se sentir ainda mais magoadas por terem sido cortadas. Então é melhor fazer isso de forma sutil e gradual, só desviando o foco um pouquinho para evitar a discussão e ir gradualmente mudando a dinâmica emocional.
Reavaliação
A reavaliação envolve repensar e reinterpretar uma situação de forma que isso impacte na resposta emocional.
Um bom exemplo de reavaliação a nível de grupo é a maluquice que rolou com o mercado de criptomoedas nos últimos dois anos. Toda vez que um grupo começava a ficar em pânico com as quedas (cada vez mais comuns) do Bitcoin e do Ethereum, vinha um grupo, inicialmente pequeno, de pessoas sugerindo que ninguém vendesse, ficassem calmos e só comprasse na baixa porque eventualmente os preços iam subir de novo. Como que num passe de mágica, todo mundo reavaliava a situação, ficava calmo de novo e parava de vender.
Um exemplo ótimo de reavaliação da situação vem justamente da ex-inimiga da Apple. Se você tava no Twitter em 2006, vai lembrar da bizarrice que foi a Tay, uma IA que a Microsoft colocou pra interagir com o público através de um perfil no Twitter. Em menos de um dia ela passou a ser absurdamente misógina, racista e sexual, justamente porque ela era alimentada pelas interações com outros usuários. E se você frequenta o Twitter, você sabe como a galera é por lá.
Na época, o Satya Nadella se limitou a falar que ‘a Tay teve grande influência na maneira como a Microsoft aborda a IA’. Em uma entrevista em 2017, ele disse que ”o primeiro passo da Microsoft foi garantir que o time responsável não se sentisse mal por ter assumido o risco. Você precisa garantir que, sempre que um erro é cometido, todo mundo aprenda com ele”.
Nada de desespero, sentimentos de culpa ou apontar dedos. Ao invés de amplificar uma emoção ruim, a ideia aqui é sempre é sempre criar uma dinâmica emocional para mudar o modo de pensar e incitar o reforço positivo.
Modulação da resposta
Modulação da resposta nada mais é do que controlar a expressão da sua própria experiência emocional para impactar a dinâmica emocional nos outros.
Sabe aquele experimento que colocam uma criança na beirada do que parece ser um abismo, mas na verdade é um vidro 100% seguro e pedir pra ela atravessar? A expressão facial da pessoa que tá do outro lado do abismo visual é absurdamente essencial na decisão da criança de atravessar ou não.
E apesar de os seus colaboradores não serem um bando de bebê atravessando um abismo, adultos carregam essa mesma tendência de procurar nos outros alguma pista do que elas estão sentindo pra decidir o que fazer. Se você não transmite confiança ou mesmo interesse no que seus colaboradores têm a dizer, qual a vantagem pra eles em assumir o risco?
De novo, a Microsoft é um bom exemplo.

O Steve Ballmer era CEO da Microsoft antes do Satya Nadella. Ele sempre foi conhecido pelas caras que ele faz e o quanto ele incentiva os times que lidera com paixão. Mostrar pras pessoas o quão animado você está é sempre um bom caminho pra que todos tenham certeza que podem comprar a sua ideia. Por outro lado, demonstrar raiva ou ansiedade podem ter um impacto negativo na moral do time todo.
E aí entra toda aquela história de que reprimir um sentimento só torna ele mais forte com o tempo. Tudo bem evitar mostrar um sentimento negativo quando você realmente não quer transparecer, mas fazer isso por muito tempo pode não ser uma boa. E a emoção reprimida sempre dá um jeito de se mostrar, seja pelo tom de voz, linguagem corporal ou trejeitos.
Qual estratégia usar pra conduzir a dinâmica emocional de um time, então?
Bom, isso depende muito de muitas coisas. O momento que o time todo está passando, a capacidade de lidar com críticas ou notícias ruins dos membros do time… O melhor mesmo, no fim, é combinar todos esses passos aí de cima e usar constantemente. Apontar os benefícios de uma situação ruim, desde que genuínos; sugerir uma narrativa alternativa para algum fato; criar um processo para que as pessoas de fato canalizem sentimentos ruins…
O mais importante aqui é ter inteligência emocional para entender o estado emocional do time, como um todo e individualmente, e identificar particularidades de uma situação que possam levar à estratégia correta.


